{ contato | quem somos | falo }
{ últimas | salada mista | das caixas velhas | obras | nossa gente | mosaicos | verticais }
{ quem somos }

...

quem somos: quem fomos

"viver é ver as bobagens que a gente fez até o dia de ontem"
gr
. . . e achar que está vacinado para novos êrros

a gente vive pra entender depois
o que não quer acreditar agora

.

tô na idade em que já se pensou 'na própria instalação do windows'
e se adaptou a conviver com as configurações originais
pois, são as que enraizaram

não arrisco dizer pra que lado pende minha balança

com menos recursos e um excesso de alertas
eu, paulo romeu pereira bissoli, filho de romeu julieta bissoli e
maria da luz pereira bissoli, nasci em poços de caldas em abril de 53
tive ótimas infância e adolescência e precipitei o resto

vivenciei muitas mudanças, outras nem vi
mas sei que muita coisa é a mesma coisa

daqui posso me arriscar a definir
o que aprendi com o que tive
mesmo que demore
ou nem acerte

...

os protocolos da hipocrisia:

vi muita maldade mudar para nomes modernos
exemplo maior é a tal da 'qualidade de vida'
novas regras hipocritamente inventadas
com insossos termos 'adequados'
e muita "transparência"

melhor seria que pudesse viger a moda do 'humanamente correto'
'bem estar' hoje é nome da seção de psicotrópicos nas farmácias
veneno muito brabo era agrotóxico, agora se chama 'defensivo'
o 'meio ambiente' não inclui favelas, enormes bairros pobres,
loteamentos em áreas inundáveis, casonas feias, altos muros,
escolas indignas, terrenos ridículos, sujeira pra todo canto,
urbanização meia-sola, pouca civilidade e ordem social,
curriolas revezando-se nas cadeiras, justiça conivente,
queremos acreditar em um e ele se alia aos bandidos
puxam a sardinha pros seus lados e mexem nas leis,
facilidade com que aumentam suas vantagens,
planejamentos míopes, os efeitos ignorados
o brachiária se impondo pra todo canto
extensas monoculturas e seus males
especuladores de todos os tipos
insegurança, cercas elétricas
a inflação perene

medidas-crime oficiais, egoismo, desrespeitos,
onde tudo 'vai ser investigado'
mas fica só nisso

'a justiça não pode existir onde a política domina.'
ez

privilegiados profissionais,
'malfeitos' e tramóias de alta rotatividade
a cada ano se esquece (eu não) das anteriores
população convicta de que isto é uma democracia

repórteres com perguntas combinadas
poderosos dando explicações sonsas

transparência é só a salada das opiniões

num güentu ouvir, sem me sentir mal,
'governo', 'sociedade organizada', 'instituições democráticas'
onde se lambuzam os irreais folgados, abusados e infinitos inúteis

pelas vozes das propostas e bravatas na hora do brasil
dá pra ver que nada é real e espontâneo, só interesses
podemos escolher uma mentira ou outra
naquelas vozes doces, bem treinadas

com uma constituição estuprada constantemente
que visa mais o fortalecimento do estado
e pouco a nação, a população

somos ainda uma grande colônia de simplórios
ora multinacional (elis dá imprêgu pá nóis !)
nóis num priciza dizinvorvê mais nada
a 'tecnologia' nóis compra pronta
minério i soja nóis izpórta
baratinho mais sérvi
'entra' as diviza !

e o lucro limpo nunca fica aqui

nóis tem investimentu istérnu (é boa!)
só qui nóis num cresce, nóis só incha


ficam os empreguinhos e os graças-a-deus
a sujeira, muitas ruínas, os pixulecos

espelhinhos e brinquedinhos nos satisfazem

'cidades sem alma, amontoados de gente'
p.
. . . rescendendo a lixo e esgoto
pilotos de corrida soltos pelas ruas
viciados e ladrões à vontade, sem medidas

o planeta 'sustentável' é o mesmo pra todos
e os que mais consomem e transformam
são os que mais apregoam cuidados
falando alto pra serem notados
com as cínicas normas

de carrões e camionetes grandes, limpinhas
não mostram a ninguém seus holerites
nem suas contas de compras
nem seus antecedentes

tendo, se bastam
ouviram o galo cantar e não sabem onde

e há irritação, insolência e deboches
com quem procura chão pra pisar

eles amargam as belezas do mundo
e tiram sua graça, os sem graças

só mesmo buscando a paz
onde não alcançam
ainda dá

...

o que antes me irritava ora me interessa
os inversos explicam melhor

tudo se aproveita e aproveito o que posso
quanta coisa vejo que nunca vi

"modesto é o vaidoso escondidinho atrás da porta"
ouvi numa reunião no rio

por outra, ora suporto os atuais chatos
pelas lembranças do que também fiz

é como uma equação matemática
onde se vai eliminando as redundâncias

saber perguntar é o melhor saber

o principal
é aprender melhor
o que nos ensinaram mal
atentar e se 'vacinar' contra
o que querem que acreditemos

constatar que o mais proveitoso
é definir o que a gente não precisa

estimo nossas faculdades
vivo a vida que ganhei
e valorizo

. . .
. . .
. . .

fiz este site em 95/96 pra ser 'meu lojinha'
queria divulgar os trabalhos da hora
e falar sobre o que via e sentia
quem não fala estoca mofo

era o tempo dos jornalecos de bairro
com matérias de alta boçalidade
e tendenciosas subjetividades

por comentários de alguns amigos
achei o gosto e tomei gosto
de me entender

"no espelho da visão está a segurança da verdade"
teodorico - código visigótico - 654

mas logo vou desmontar
ora 'pelos finalmente'

cansa e não adianta

. . .

fundamos a my zoom fotografias ltda em 1990
eu e um colega mais interessado, o incitador
que se mancou e saiu em um ano, paguei

tive muitas propostas na vida
só agora me dou conta

e

em 2014, na jucerja, 'garfaram' o nome que inventei
disseram que já existia, insisti que era eu mesmo
2x a mesma resposta, sem outras explicações
fui vendido e comprado, perdi a my zoom
meu contador nem foi lá ver o porquê
e eu nem seria atendido se fosse

ainda tive que dar 500 reau
pro fiscal me entregar o novo alvará
que estava pronto na gaveta, ou nunca estaria

a firma está inativa e à deriva desde 2015
a sêca de trabalhos começou em 2008

encalhei

"o governo não é a solução para nossos problemas.
o governo é o problema ! "
r. reagan 1981

" . . . isso é jogo 'robado ! " n. nahas 1989

ora, ao menos mantenho o domínio do site

...

nunca freqüentei qualquer rede social
não me inscrevi em blogs ou vlogs,
não entrei em nenhum grupo

não torço pra nenhum partido político
não bato palmas para 'simpáticos'
não frequento auditórios

'na multidão, contra mão'
tj

nunca fiquei em rebanhos
mas onde me encontro
atraio ouvintes
confidentes
e chatos

...

'funciono' com email,
o mesmo há 26 anos: promeu@myzoom.com.br
estou com o tel 35 99872 0972 só whatsapp
nem ando com ele, olho de manhã e à noite

ficou caro e complicado
manter o do rio aqui, e mais um
com operadoras vorazes e ardilosas

outra :
mostraram-me um paulo romeu no facebook
montanhas ao fundo e um 'fernando pessoa' de chapéu
não faço idéia de quem seja, mas conheci quem é bem capaz

...

o que andei fazendo:

fui pro rio em 71 por gostar desde 1960, ia nas férias
em 66 andava sózinho entre ilha, ipanema e tijuca
vi os últimos tempos do rio de janeiro agradável
os bondes, a maresia ainda com cheiro bom
e as amendoeiras no início do verão
a rádio mundial que nos excitava
música da época bem inspirada
o feijão preto com carne sêca
bons butecos pra se comer
um bom pasquim pra ler
o sotaque das meninas
e suas roupas bonitas

mas vi que era diferente naquele meio
tiveram escolas melhores que eu
mas criados dentro de casa

ouvi mais de uma vez:
"gosto muito dessas coisas de natureza!"

e disputei meu espaço com eles
se perdi, não considero

ganhando bons salários, dignos na época
a vida chegou sem me explicar as coisas
logo me enrosquei, tive de dar conta
das novas necessidades que criei
descartando meus sonhos

tive a sorte de conhecer e conviver com 3 bons amigos
wilson moura, carmelo luises e rodezir martins
fotógrafos e laboratoristas maduros
verdadeiros irmãos, quase pais
informados e muito vividos
p... velhas do rio

com eles mergulhei mais fundo na profissão
comecei a formar uma base que me faltava
sem eles seria sufocado ou massacrado
por invejas, assédios e preconceitos
num rio de cobras perversas

mesmo assim sofri as angústias
de agradar para ter trabalho
também caí nas conversas
de muitos 'sabidões'

ainda hoje sou capaz de cair

...

na profissão havia que aturar o interesse
e as tentativas de aproximação
pela vida de fotógrafo

nunca me achei artista, mas técnico criterioso, apaixonado pelo ofício
uma profissão que é muito atraente e prestigiada, mas de folgados
em cinco anos já podia rir dos 'sabidos' com décadas de prática
inventava meus próprios métodos para melhor produção
pelo que passei por muito despeito e chacotas

meu interesse trouxe vivências
fiz muitas capas e miolos de folhetos
fiz muitas fotos ilustrativas para 'bem intencionados'
pois agora fiquei com pouca vontade de acreditar no que vejo,
no que mostram, como se mostram, como foi feito pra se mostrarem

isso funcionou como uma secadora de ilusões

não fui fotógrafo de capa de revista
(mas tive foto em página dupla na veja)
por necessidades básicas priorizei a rapidez
evoluindo pontos de vista, boas cores e nitidez
a experiência feita em laboratório foi primordial

após um trabalho elogiado para faturar sucesso
no dia seguinte estava ansioso por outro
não digeria minhas evoluções
precisava do da hora
na corda bamba
foi assim

'sou mineiro paulista', gostava de dizer
e no meio técnico fui bem recebido

. . .

três empregos bons, um filho,
e comecei minha carreira solo
'carregando' um sócio do leblon
que me ensinou muito, sem querer

...

o que fiz de útil:
atividades resumidas na minha versão
há mais que não quis expor aqui
ou esqueci

saí de poços em 70
fazia eletrotécnica e
não suportava a escola
já sabia revelar em cores
1 ano em sp e ribeirão preto
de mochila desci no rio em 71
com 50 mangos que a mãe deu
(um prato de comida era 3,60)
havia o emprego que escolhesse
mafra e multicolor, meus mestrados
e fui atrás de meus próprios trabalhos
pasta de fotos sob o braço, downtown
em 75 já tinha bom laboratório próprio
sérgio dourado nos deu o maior impulso
aprendi a iluminar maquetes nesta época
então não precisava mais procurar clientes
nem fuji nem kodak: sou cria da agfa-gevaert
fui fotógrafo e colunista policial em jornal de sp
trabalhei na cozinha das notícias e vi os temperos
'di menor', inseguro mas empolgado, fui demitido
sem mágoa, vi o que me ajudou aprender mais tarde
até hoje procuro e curto filmes de imprensa impressa
lá também fiz muito casamento, formaturas e festonas
fui piloto acrobata de colormat, varioscope e durst 1000
era fera nas ampliações, fiz muito trabalho pra medalhões
em 74 já sobrevoava o rio e o brasil com, pela e para a votec
fotografei muito avião e helicóptero de helicópteros e aviões
registrei as sondas P3 e P5, as pioneiras da bacia de campos
mpm, standard, kastrup, mccann, jwt me deram trabalhinhos
em 74 fotografei toda a fábrica nacional de motores, a fênêmê
fiz laboratório pra jacques van de beuque e o marcel gautherot
fui amigo e provedor de ampliações de paula laclette, botânica
de 73 a 83 servi à 'pétobráis', terceirizado, fotografando de tudo
tudo que ela terceiriza e diz que faz, as realidades próprias deles
deu pra entender bem como funciona o lema "o petróleo é nosso"
vi luxos, buchos e caviares que ainda me revoltam, mas precisava
frequentava o 20º andar, e entre outros fui algumas vezes ao 24º
no 3º escalão fui 'convidado' a doar uma moto: dei o capacete e saí
de 78 a 2002 ajudei 'seu' oscar niemeyer a apresentar seus projetos
suas observações claras me ajudaram a evoluir os bons pontos de vista
fotografei para as maiores empreiteiras e grandes escritórios de projeto
com fotos verticais ajudei numa dúzia de viadutos e dezenas de canais,
duplicação de estradas, urbanização de praças, de favelas, loteamentos,
centenas de kilômetros de "terra incógnita" para linhas de transmissão,
era no tempo do landsat 3, detalhes no chão só podiam ser adivinhados
complexos industriais, esportivos e penitenciários, terrenões, fazendas,
fiz até 500 km2 de área urbana em 1:2000, 150 km de valas em 1:500,
vielas para asfaltar, becos, questões de divisas, encostas ameaçadoras,
bacias assoreadas, vazamentos de esgoto, aterros/lixões clandestinos,
projetos de anel viário, novas avenidas-canal e planos de recuperação
de 91 a 2015 fiz fotos verticais pra quem sabia que eu fazia, ajudei na
rapidez dos projetos pela nitidez nos detalhes, evoluindo o que podia
estratégias de intervenção e técnicas de manejo se fizeram mais fácil
minhas hasselblads normal e superwide, e fujicas 6x9 esquentavam
pedi 'autorização' a famigerados para fotografar nos seus territórios
entrei de moto, só, no grotão da penha para concorrência de obras
de dt-180 novinha, subi as vielas, falei com os 'caras', e fotografei
um major pm, do serviço de inteligência, foi em casa e me pediu
uma palestra 'com máscara ninja'; eu disse pra ele ler 'os sertões'
de 81 a 83 inventei molduras auto-adesivas, montei uma fábrica
no pé do morro do alemão, tive 15 escravos, 25 mil peças/mês,
inflação de figueiredo e dumping dos concorrentes, quase fui
em 78 ajudei nas exposições do 'programa nuclear brasileiro'
até almocei em churrascarias junto aos tecnocratas e coronéis
ria com eles pra não perder os gordos trabalhos que ganhava
e fotografei todas as frentes de itaipú para seu relatório de 79
fui 2x à escolinha do prof raimundo a serviço de um 'aluno'
fotografei 70 fazendas do tempo do império p/ um livro chic
comi frango em algumas antes de virarem pontos turísticos
fiz a produção e montagem de painéis no espaço lúcio costa
e claro, do espaço niemeyer também, trabalho inesquecível
os painéis duplos do memorial jk, descartando a manchete
e pro oscar fiz quatro exposições abrangentes de sua obra
fotografei e filmei o engenhão, da fundação à inauguração
quando vi que era um cineasta de terceira, só pensava foto
para o banco central: exposição eco 92 e a nota do gaúcho
fiz 70 painéis da exposição 'arquitetura de terra' no mam
festinha no oscar, despedida de uns arquitetos franceses,
me contrataram para registrar a pequena reunião, então
bebi com darcy ribeiro, vinho do melhor, o quase porre,
empatamos no falatório, de religiões às mulheres, claro
oscar com os franceses, de olho na gente, quase ciúmes
ele sempre pedia pra eu contar minhas viagens de moto
não dele, já recusei uma 'boca' no ministério da cultura
agradeci, vi que teria de usar coleira, ficar à disposição
no tempo do 'zé do mé', quando tinha muitos clientes
tempos em que secretários me agarravam pelo braço
governador me mandava emissários para 'furar a fila'
voei a região de presidente prudente pro incra 'lotear'
entre 86 e 91 trab... me diverti com o sérgio bernardes
em 83 e 84 fotografei enduros em praias e montanhas
nas trilhas esperava os machões passarem e registrava
agora vejo, me divertia bem mais que os competidores
e aprendi o outro lado dos homens e as suas máquinas
quando caíam, perdiam: "_a moto não me aguentou !"
de parati a campos perdi a conta dos vôos que fizemos
'inaugurei' o abastecimento no aeroporto de cabo frio
de 78 a 83 pratiquei pequenas esculturas em madeira
tive que parar pra não parar de remar, senão parava
fiz fotos aéreas para univ. harvard - landscape dept
(um jardim do burle marx na fazenda marambaia)
de 85 a 2015 vi muito lixão 'virar' 'aterro sanitário'
fotografei expansões e revitalizações de shoppings
reproduzi arte contemporânea para galerias tops
a pedido do oscar, fiz as bandeiras do parlatino,
fotografei p/ a coppe, lab hidrologia, ime, iplan,
dei uma aula na uerj sobre foto-interpretação
colaborei 10 anos nos projetos do chacel,
20 anos c/ sérgio dias e ricardo amaral
comecei um livro com joaquim levy e
o escritório de burle marx em 2014
levei-o a almoçar no meu buteco
(o mingote era restaurante)
dilma levou o joaquim

e o mundo se me afastou
já era a vez de outros
podia ser mais útil

. . .

em 2015 foi pro lixo meu arquivo de cromos e negativos
em 2003 já tinha oferecido pro arquivo da cidade
que "não tinha recursos e pessoal pra catalogar'
os filmes mofaram, salvei as digitais

de 2000 pra cá enchi mais de 200 CDs e DVDs
e, em HDs externos salvei 2,5 Tb

todas as fotos que fiz tiveram finalidades práticas (e políticas!)
algumas das quais refaria com melhores critérios
por orgulho e merecimento de causa

outras (e foram tantas) eram feitas só pra inglês ver
muitos trabalhos foram para ilustrar projetos
que se sabia destinados a ser só projetos
para uns dizerem que realizariam

fiz eventualmente algumas fotos bonitas, pois naturais
nos translados a um objetivo, curtia singularidades
e exibia as que gostava aqui

mas o dinheiro vinha mesmo era das fotos feias
tragédias ambientais, obras feias, favelas, ruínas, lixo

de graça eram fotos de pedras ameaçadoras nas encostas,
fotos de poluição evidenciando causas, nós de trânsito
fotos que nem sempre gostaram de receber (!)

e trabalhos de estudantes, mas só pra alguns
mauricinhos e patricinhas podiam pagar

achava muita coisa fácil, noutras nunca levei jeito
mas justificativas não explicam nem justificam

trabalhei pra mocinhos e bandidos
já entreguei serviços medíocres
não podia escolher clientes
urgências e paciências
euieu pelos meus

"paulinho: vc vende um tempo que não te volta mais
por uma moeda que não corre nas tuas veias."

serjão w bernardes em 88

vender minhas habilidades e eficiência me deixava contente
com estrutura vulnerável, atrevido a missões 'brabas'
passei por muitas angústias, ansiedades e perigos
são histórias que desisti de pôr aqui
uma lembra outra e mais outra
e algumas comprometem

vi de perto mais do que esperava, intimidades da profissão
fotografei muita gente trabalhando de me dar vergonha
e folgados sem vergonha que só fingiam trabalhar
esses, os que mais sabem e gostam de posar
nas suas coloridas realidades oficiais

conheci umas 3 estatais
e outras tantas prefeituras
o que me envergonha até hoje
pois, colaborei nos desperdícios

...
...

cria de laboratório, custou mas montei um do melhor nível
químicos originais, papéis novos, importava meus filmes
vi caras e satisfações que valiam mais que o pagamento

ainda tento refinar a composição, o básico
quando era laboratorista vi grandes fotos
muitas mesmo, tomadas de instamatics

a técnica constrange a criatividade
mais hoje, digitalmente homogeneizada

pontos de vista deveriam ser estudados
em todos os seus parâmetros
já no ensino básico

uma boa pré-observação nos ajuda no mais difícil caminho

de que adianta ter uma nikoltax fxd 700 mark III alpha b2 platinun-extra,
com uma super zoom 16~1600 aspherical-anastigmatic-catadioptric,
filtros nojentos, coletinho besta cheio de bolsos, marcas e marras
se o 'ixpérrtu' fica onde está e não 'rima' objeto e fundo ?
pois, eles sabem caprichar é nas próprias poses
e na imitação do que já viram

minha bronca, meus recalques, em dois ou três grandes clientes vi:
às vezes uns e umas, riquinhos, netinhos, protegidas de chefões
voltavam das férias com uma nikon pendurada no pescoço
diziam-se fotógrafos e simplesmente me espirravam
faziam uns livros-brinde, folders, logos modernas
às vezes até criavam um novo departamento
botavam todos os amiguinhos pra dentro
porém suas fotos saíam bem mais caras
fretavam os helicópteros da alegria
assim que enjoavam, cansavam ou
suas enrolações ficavam evidentes
os chefes me chamavam de volta

eu, caipira pra estas turminhas
aturava seus desdéns
pois, precisava

. . .

pelos trabalhos vistos e o telefone é que me achavam
assim consegui me manter nas pontas uns 25 anos
ora, pra mim isto é 'o mais principal'

o que fiz ou deixei de fazer, fui eu mesmo que fiz ou não fiz
do meu bolso arrisquei, contratei, realizei, doei, ganhei e perdi

sempre envolvido nas expectativas dos outros
teria feito mais não fossem as pressas
que só atrasam a vida da gente

colegas com muito menos bagagem
chegaram bem mais longe que eu
paitrocinados, comerciantes
e 'bem garantidos'

nunca fui negociante, nem arrogante
nem andava atrás de 'boquinhas'

hoje na idade das confirmações
creio que havia algum sentido
tudo ficando mais simples
as fichas caem sem doer
mesmo as amargas

do muito que não entendia
sempre desconfiei

não sabia que já sabia

saudades de mim

...

...

a década de 80 foi meu tempo de maior insegurança
montei, funcionei e vendi uma fábrica de molduras
me dispus a trabalhar em condições de risco
alimentei as maiores esperanças

dois filhos e o preço do pão subindo dia sim dia não
o 'bom' do sarney e seus planos ocos foi me forçar
a sair às visitas para encontrar novos trabalhos

"pra poder ver seus limites há que conhecê-los"
nietzsche

era o final dos tempos de grandes e muitas obras públicas
uma empresa carioca me abriu as portas da prefeitura
a prefeitura 'me entregou' às grandes empreiteiras
aquela só me encomendava, estas pagavam
depois elas mesmas me chamavam

na década de 90 estava ganhando, somando e distribuindo

mas em 99 me atolei em pesados conflitos de afetos
sacrifiquei o melhor que tinha, inconsequente
no início endeusado por ser do meu jeito
depois execrado por continuar sendo
do canto da sereia ao funk pesadão
sutilezas, surpresas e desilusões
febres, precipitações, recaídas
reciprocidades inflamadas
no diário, céu, mel e fel
era barra pesada

e nem precisava

murcharam as razões
me afastei de amigos
perdi funcionárias
perdemos

só de longe se vê

pois, história cara
gratidão engasgada
expectativas vencidas
experiência sem preço
boas lembranças e alívios

então peguei preguiça
da vida, das coisas, pessoas
todas as vontades desbotaram

houve transições que não acompanhei
naquelas angústias intermitentes
cego para ver, tenso pra sentir
comecei a colecionar perdas

desconsiderei as evoluções tecnológicas
colegas se afundavam e eu os desmerecia
milhões de novos fotógrafos, alguns sérios
câmeras digitais, celulares, novas produções

quando me dei conta, estava já muito atrás

gerentes de obras já não me chamavam
e os 'malditos' drones, que, brincando,
faziam bonito o que eu não conseguia

procurei dominá-los mas me faltou jeito com joysticks
frequentei aeródromos de velhinhos e de riquinhos
e eles tentaram me vender uns usados
mas já tinha visto este filme

além de fraco pra investir em equipamentos e gente
já estava sem paciência para tolerar moderninhos
ficar na obrigação de aturar envolvimento com
animadinhos, afetados e folgados (as, as, as)
conviver com espertinhos e puxa-sacos
nas suas simpatias bem treinadas

sempre me iludi com as equipes que montei
os que chegavam propondo voar muito alto
esnobavam conhecimentos do momento
embarcavam e eu tinha que servi-los
suas expectativas, meus riscos

financiei efervescências
criei corvas e cobros

dava plena confiança a todos os chegados
o que gerava competições ridículas
pelas 'minhas graças'

de fato, me envolviam e me atrasavam
e, se desse minhas idéias pertinentes
atrapalhava o andar do teatrinho

além de procurar e 'pescar' o trabalho
acabava fazendo quase tudo sozinho
tinha que buscar, estudar, fechar,
descascar, processar, temperar,
embalar, entregar e faturar
pagar logo os folgados
e aí esperar o meu

e quem virava noites pelos prazos ?
meus talentos, meus defeitos

"todos reparam nas cachaças que bebo
mas ninguém vê os tombos que levo"

- cicinho, amigo de estrada

"... já me deram muito afeto e mais seria supérfluo.
gosto das pessoas que me fazem amá-las,
mas isso é mais difícil."

(perdi o autor, um cientista)

...

...

me dediquei aos mosaicos
e então tive 7 anos tranquilos
trabalhando sem qualquer ajuda
com uma boa câmara e um bom pc

por este tempo chegaram as 'marolinhas'
depois do susto de wall street em 2008
e os 'malfeitos' que transpiraram aqui
os bons clientes reduziram e frearam
suei pra receber trabalhos prontos
cobrar é muito constrangedor

certas perdas me trouxeram melhores ganhos
passei a fazer menos, maiores e mais altos vôos

.....

fotos aéreas:
talvez já tenha mais de mil horas voadas só para fotos
vi selva, praias demais e tantas serras bonitas

vivi situações de pane, 3 de perigo maior
perdi alguns amigos para o chão

era conhecido por dar a proa de longe
diziam que tinha um gps na cabeça
é que sempre gostei de mapas

e,
como os mais graduados meteorologistas
às vezes acertava a previsão do tempo

...

'o empresário':

tive que ouvir, 'di grátis', de clientes amigos:

_"o paulo não sabe ganhar dinheiro!" (chefetes da prefeitura)

e de ajudantes bem agraciados: "_ o paulo não tem ambição!"

nunca associei fotografar e administrar uma firma e gente; deficiência nata
não conseguia 'trabalhar um plano diplomático' com nenhum cliente
a ida a uma obra longe era o bom passeio de moto ou helicóptero
eu era muito valorizado, me dispensavam as melhores atenções
a produção da encomenda, o orgulho da técnica que evoluí
os trabalhos, tão inesperados, cada um com seu desafio
sempre novos ambientes 'inacessíveis aos mortais'
eu só gostava disso, e ainda era bem pago

a grana era distribuida a merecedores e tomadores
achava que os contadores faziam sua parte
e que o trabalho nunca acabaria,
que seria sempre procurado

meus privilégios foram ter importantes missões
direito, o de entregar 1/3 a um estado ingrato
boa parte das vezes antes de receber
benefícios, até ontem, zero

44 anos no rio de janeiro, às pressas
sem poder ver o que de fato fui

ainda estou pendurado na receita
por algumas guias 'esquecidas'

pois, dispersivo sempre
minhas desordens

um dia acerto

. . .

tenho problemas, lástimas e pesares
remorso não

...

mulheres:
seres maravilhosos
mas, seguro é não comentar nada
ora aceito que tenham 125% de razão

melhor é deixar assim mesmo

...
...

agora, as 'mota': minha cachaça

aos 8 anos ia na padaria mais longe só pra ver, rodear e cheirar
as 10 motocicletas da cidade que lá paravam eventualmente
bsa, norton, jawa, royal, norman (james), matchless ...

só em 79 consegui a primeira
já rodei, no mínimo 1 milhão de km
nas 12 motocicletas que tive para trabalhar
e quando podia, viajar, passear, comer peixe em arraial

presente da prefeitura e da odebrecht, numa manhã muito quente
ofereceram o autódromo nélson piquet só pra marauder e eu
dei uma volta, riscando pedaleiras no chão sem caroços
achando que na segunda cairia, parei e agradeci
podia andar mais, mas acho que fiz bem
de bermuda e sandália a 195 km/h
ainda sobrava cabo

...

sou grato,

à minha vó maria sabina de jesus pereira (1886-1975)
neta de 'bugre pega a laço', me ensinava, aos 5 anos,
alguns brinquedos que seus irmãos faziam
com isso desenvolvi habilidades básicas
então inventava os meus e mostrava
e evoluia, o que mais me valia,
como valeu, e quanto

seu interesse em mim foi primordial

ela contava coisas de pretos e índios
que descascavam cana só com os dentes
da sua gata que trazia jacarézinhos pros filhotes
das brincadeiras de bonecas de palha que procriavam
das onças que seu pai matava, das 'enchovinhas' que ele trazia
após sua ida anual a brodowski trocar suas colchas por sal e utensílios

à sua filha, minha mãe, guerreira engenhosa e teimosa, grande cozinheira
e meu pai bom e simpático, mudando de atividades na vida, como lhe foi
ele que me ensinou a gostar de são paulo dos 10 aos 14 anos
a mãe me ensinou a perspicácia (teimosia) e a cozinhar
lembro todo dia deles, com muito gosto

'eles me deram a liberdade de encontrar meus próprios caminhos'
só não me deram um irmão, que sempre me fez muita falta

aos meus 3 filhos ativos; meus espelhos, minhas medalhas, minhas sementes

Marcos - uerj, ufop, ufla, unifal + meia-fía Valéria, unifal e ufla + Pedro e Lis
Cecília - puc, ufla e ufla, que cuida dos bichos sobreviventes de Mariana
Daiana - puc, genra, avalia os pacientes que se submetem aos médicos
Paula - usp, unicamp, univ de lyon, professora e mãe do Theodoro
Miguel - meio-fío, alto cirurgião das partes baixas

é o que devo ao caráter, à sensatez e gerência da Fátima
por eles me fiz precisar e ora tenho o gosto de ser gostado
com as ocasiões sublimes de me passar a limpo com os netos

devo aos professores: maria enir (em 1 mês li e escrevi), tio hominho, tia luzia,
tia maria, ti-dé, tianinha, saudades deles hoje, eunice frizon, nicola romano,
irmão gregório, carmelo luíses, manuel san martin (manolo), nadir gavião,
lula e guilherme (leco) campello, elias, marcão, cézão, cândido botafogo,
padre jayme sullivan, homem que mereceu meus maiores respeitos,
carlos moscovitch, nélson osanai, joaquim schultz, norma taulois,
ronaldo bittencourt e ivaldo gropello-cbpo, élmio e clóvis da ag,
cecília castro, eduardo baron, márcio manela, regina kriegel,
sérgio bernardes, o arquiteto e sérgio bernardo, o violinista
mariano jacon, oscar niemeyer, yedo cavalcanti (dr iodo),
josé portinari leão, joão niemeyer, mozart, adeline,
paulinho césar, sílvio, anne lore, paula laclette,
sérgio costa, sérgio magalhães, engenheiros,
lúcia monteiro, carl hilmer bem querido,
cláudio poubel, célio e henrique da sap,
joão pedro, toni, ernesto, sérgio klein,
ronaldo câmara, mauro esteves,
walter zollinger e afonso falcão,
pedro cortes, dick welton, lê,
fernando tasso fragoso pires,
6são, maria d'alva e divina,
padre zézinho, miudinho,
na marcenaria em 61,
deivison e ed wilson

fiquei com um pouco de cada um
e muito de todos

folguei e fui ingrato com vários deles
pois me aturaram e me alçaram

de todos posso contar uma boa história

tantos se foram, daria meu lugar para alguns
meus erros pago, não apago. também fiz coisas boas

tenho uma dívida inestimável com luiz carlos de oliveira e silva,
que de 2006 a 2015, no castelinho e depois em sua casa,
explicava os grandes pensadores e seus conceitos
com vinhos, biscoitinhos e agradinhos
que as coleguinhas traziam

pingou solvente nos nossos entendimentos
nos ajudou a entender nossas capacidades

nas melhores aulas eu dormia

...

devo demais aos funcionários, bons parceiros e amigos:

ana, heleno, gilson (quase filho), sandra e cristiane, lena (com louvor) e geninha
com vontade, ajudaram de verdade, só me deixaram boas saudades
gostaria de ter ficado com todos, acho que topariam

e aos autores que li e não vou citar
pra não faltar com nenhum
nem ser classificado

agora em poços tive a sorte de conhecer maria inês e joãozinho, a padeira glória,
o velho dos livros velhos da jaçanã dos santos, pompeu, jamil, seu antônio,
bin laden, todos da mina do cambará, o beca vivido (já foi), lucas, jair,
zé brechó da palha, jé, 80% surdo, meigo e feliz, grito com ele,
o queijeiro e a menina nova de caldas que estudou psicologia,
jéssica bonita com seus 4 pedros e tantos gatos (um é pedro)
o juiz federal aposentado que me deixa chamá-lo de você,
eliane e joão, bons como suas bananas, ovos, café e leite,
nei, maria rita e o zé de santaninha, pedro balaieiro,
panamá, lembra meu pai, contador de piadas,
bodinho de laranjeiras, bem viajado

nós sabemos rir gostoso

. . .

e, advirto, porque me custou caro:

se há quem sirva de exemplo, outros entram na nossa vida
para nos servirem de lição, às vezes amargas e demoradas

"o mundo está cheio de gente que não vale o que diz."
voltaire

só criticam e nada sugerem, 'espertos', 'sabem tudo'
tudo que ouviram, leram e fofocaram com outros
acham arrogante quem tem conhecimentos

não têm dúvidas de nada, são plenos de certezas
com veredictos da moda na ponta da língua
pouco, mal e viciosamente informados
seguros da 'verdade'

se não puxam para baixo, tentam nos abafar
querem atenuar suas próprias fraquezas
maldizer todos pra vc e vc pra todos
têm prazer em torcer contra

se não conseguem te manipular
é certo que vão te difamar

". . . a alegria alheia incomoda"
rita lee

pensam que todos
devem se pôr no nível deles
vivem afirmando que são felizes
e suas histórias são bem mal contadas

descobertos, têm alguém pra inculpar

tudo deles e neles 'é melhor', coragem têm, vergonha não
''simpáticos'' e esquisitos, nas poses e dissimulação

quando adoçam a voz, há que redobrar a atenção
nestes casos minha alergia aumenta os sintomas
só dão arrependimento de ter dado conversa
evidências constantes os denunciam
mas pensam que ninguém nota

lembro que sempre quando eu os deixava
ia pensando: pq ele ou ela disse aquilo?
pq não comentei nada na hora ?

na hora fico sem respostas
não sei porque

sou lento nas interpretações

e demorei muito a me dar conta:
têm pavor de perguntas diretas
e perdem fácil a paciência
não convém se ver

sabem bem é esquecer o que já fizeram
tanto quanto o que andaram falando
complicando vidas e amizades

mas como a verdade sempre vem à tona
gastam energia justificando seus atos
nem eles mesmos se suportam

quando a gente para de esquecer o que fazem
e começa a lembrar o que já fizeram
então é a hora certa de se afastar
não têm mais nada a ensinar

pensam que todos são seus iguais
fingem acreditar nos próprios fingimentos

mais religiosos, mais perigosos ... e inescrupulosos
seus 'banhos' semanais não dão conta da suas sujeiras
suas posturas e atitudes beatas bem pouco lhes resolvem
dizem que 'rezam' pra todos mas só pensam em si mesmos
em bocas que repetem amor e deus com duros olhos ansiosos
vozes altas e caras arregaladas de quem nunca deu um suspiro

mas incorporam sua pose, posam de virtuosos
com moral e ética de suas doutrinas
e se enroscam com isso

seriam incapazes de contar a história de sua vida
sem apartes, desmentidos ou observações

pois, ensinam a nos cuidar se tomarmos cuidado com eles
suas existências são úteis e práticas de certa forma
quando a gente se afasta e passa o mal estar
e nos damos conta do que são

que alguém perdoe eles por mim
'nem sabem o que fazem' jc
mas sabem sim

só não sabem o porquê, nem querem
mas desconfio, só evito falar

arre !


" eu deixo vc me fazer de bobo, mas vamos combinar antes ! "
- ouvi de um mestre de obras a um peão, com toda graça

o que vale é ver quem vale,
quem gosta da gente
pra ficar perto
(meu filho)

...
. . .


voltando aos bons sabores do trabalho:

devo a eficiência que pude ter à agfa, fuji, kodak(c/reservas), às queridas minoltas,
fujicas 6x9 65 e 90 mm, hasselblad 500 cm e superwide, linhof technika 4x5",
rollei 35, rolleiflex, noblex, colormat, varioscope, majosix, variomat,
schneider, rodenstock, zeiss, mecablitz, vivitar, lunasix, gitzo,
time-o-lite, durst, colex e às ótimas canons digitais
ainda farei um museuzinho com todos

intel, microsoft, adobe, google e google earth + garmim
esquilo b2, robinson 22, 44, 66, hughes 300, 500
beechcraft seneca, bell 47 e 206, cessna skylane
e tantos outros em que voei só uma vez

suzuki, ray ban, yamaha, 'vitorinokia'

ferramentas de talento, usei com gosto

e curti o quanto e enquanto pude:
phillips, teac, thorens, shure, harman kardon, lando
de 75 a 2011 juntei 10 metros de LPs lado a lado
mas tudo foi saqueado na casa da mãe

hoje, sem aquela qualidade de antes, mas ainda
uns fragmentos de músicas ouvidas por aí
me remetem a muitas do início da vida

vou ao google e youtube e a vejo completa
procuro as traduções, resgato meu direito
lembro dias antigos e o que fazia então
a memória está lá esperando
mais longes, mais perto
mais me lembro

o que não pude curtir
agora à vontade

a curiosidade me mantém

. . .
. . .


hoje
dou boa vida a um gato gaiato, cor de pulga, olho azul, brincalhão e comilão
e a uma gata linda, sofisticada e exigente, que resolveram morar aqui
ele, um animal ninja, avança em qualquer cachorro; é um onço
ela não suporta vê-lo brincando, logo cria caso, como sóe
mais o vilão e a intrusa que vêm pegar seus restinhos
com a briga diária pra ninguém perder a forma
pelos pêlos que voam se vê quem apanhou
quando ouço encrenca, interfiro
e tome água, vilão !

a cada dia nos entendemos mais e gostamos de nos agradar
não sabia que se podia gostar tanto deste bicho
eventualmente sonho com eles e outros
me ajudaram a entender a paz

são treinadores dos nossos sentidos
sei seus vários modos de miar
o jeito caprichoso de andar
de chegar e trocar afagos
de atentar, pedir
e de olhar

falam pela ponta do rabo

e os tantos passarinhos que vêm aqui pra lanchar
até agora contei 19 espécies, 5 só de beija-flor
abelhas, arapuás, jataís e marimbondos
mais os morcegos grandes, mansos
nos restos de frutas, à noite

um beija-flor miudinho, velhinho, fala bem-te-vês (!)

bebe seu chazinho, senta no seu poleirinho
e fica resmungando baixinho, meia hora
deixa eu chegar a meio metro, me olha
e
se chegam os bem-te-vis escandalosos
ele os imita, discreto, rouquinho
já vi 2 vezes !

gosto dos sanhaços,
os mais vivos

. . .

. . .

quando posso, vou aos 'sertões' desta região exuberante
conhecendo os lugares que na infância só ouvia falar,
motor 2t, som e fumaças agradáveis da motocicleta
as estradas são de todos, caminhos de quem acha
fujo de asfalto, vacas, cachorros, chuva e tombos
marco uns tocos pra cavucar um dia, paro fácil
ipês, raízes de cajaranas, jacarandás, perovas,
panho goiaba, casco laranja, xêro fôia
acho água de mina nas sombras
ouvindo o lugar, de longe
absorvendo silêncios

me torro no sol
em espaços verdes
e bafos de terra fresca

'dias grandes, azuis e brancos'
gr

nos caminhos, roceiros(as) tranquilos
prontos a uma boa conversa
e com o que dizer

quase todos nasceram onde vivem
e já foram ao menos uma vez
à 'pricid'nórt'

nas alegres chegadas, sorrisões, comidinhas e comidonas
rosquinhas e quitandas de velhinhas muito espertas
doces, linguiça frita e queijos frescos da casa
ótimos cantos pra se sentar e ficar
pão, pinga e café de verdade
nem tudo de uma vez

fora os bichos que admiramos e comemos
lambuzados de paz, ambientes relíquias
tranquilas e fraternas comunhões

às vezes levo uns bifes pra fazer lá
e pepinos pra salada, só

"_ foi bão cê chegá, tava pensando uma coisa pra te falá!"

nas cozinhas, onde as melhores recepções
quando não acho uns restos, fazemos
comemos no sol ou na sombra
ouvindo galos e regos d'água

as caras das crianças me deixam seguro

gostam de minhas histórias
degusto seus 'causos'
nos interessamos

lá sou tratado como super-herói
pois morei no rio de janeiro
. . . 'é muita coragem !'

caipiras cheirosas, saudáveis, vigorosas, frutas do campo
ativas e 'orgânicas', desmentem qualquer feminista
não precisam provar nada com caras de sabidas
não se vê poses, só as atitudes espontâneas
não exigem atenção pois não precisam
já falam claro o que é e o que não é
conversas na intensidade certa
caras sérias que encantam
e sorrisos de toda graça
fêmeas inteiras

"... o rir um pouco rouco, não forte, mas abrindo franqueza quase de homem,
sem perder o quente colorido, qual, que é do riso de mulher muito mulher,
que não se separa da pessoa, antes parece chamar tudo pra dentro de si."
joão guimarães rosa, o insuperável

umas manuelas sacudidas que me deixam sem jeito
uma rafaela que chega bonita na sua égua 'catita'
uma thaís que pilota trator; ara, planta e colhe

o que a gente fala tem boa volta - o que se ouve se aproveita
sem 'climões', ainda não vi perturbadas ou 'tarjas-pretas'
nada de olhares tortos, conversas evasivas, risadas ardidas
lá não há ecocôlogistas fanáticos que comem transgênicos,

os homens chegam tranquilos
trazem e dividem paz
rústicos e puros

a gente se entende bem
um velhinho um dia disse:
"chegou o homem verdadeiro !"
seria ironia ? acho que não
eles não têm este hábito

é porque esclareço o que
não tiveram chance de saber

e ouço confidências deles
chegam assim: 'vc que é vivido' ...
e nós trocamos experiências e valores
e devolvo que bem vividos e sabidos são eles
em comum, estratégia e habilidades de sobrevivência

"bobo é quem pensa que caipira é bobo !"
c pires

suas casas simples e bem posicionadas
abrigam com conforto e dignidade
vidas simples e muito ricas

difícil é ir embora, sempre um café a mais

saudades plantadas, volto carregado de ecos:

' . . . 'num demora não ! ' . . . ' vem pra posá ! '

um dia me ligaram: ' teu' doce tá pronto ! '
só porque elogiei uma laranjeira saudável

não fotografo estes rostos, estragaria, só lembro
não tenho a soberba dos medalhões posudos
nem a cara de pau dos photo-marketeiros
que vivem de explorar estas purezas
em troca de um boné ou camiseta
e faturando em cima depois

ando por lá menos do que gostaria
pra não cansar as hospitalidades
nem aguar minha graça

as satisfações superam os desejos

...

peguei gosto de andar no cemitério
nas boas sombras pra se sentar e pitar

dia sim dia não, o mercadão
na feira de sábado a via sacra
sorrisos de bons reencontros
alguns me esperam pra falar
e, 'vêis in quando', convidar

lá também vejo as afetações dos privilegiados
as constantes lamentações dos remediados
os desejos de integração dos produtores
a injusta ignorância dos excluídos

outro dia, quis saber de um ex-carreiro, 93 anos
que viveu e ainda pensa e fala só em léguas
(tem 'légua das grande' e das 'piquena')
magro, anda mais rápido que eu,
o que perguntei:

_ qual era a velocidade de um carro de bois,
quanto o senhor andava num dia de viagem ?

ele parou, olhou pro chão ... pra mim,
e disse mansinho:

" _ O boi anda na toada da cantiga do carro ! "

calei a boca e guardei

...

hoje meu relógio é devagar, a semana é que se apressa,
os anos agora só mudam de nome ou número
me atento à lua e às estações

se ainda conseguir me reabilitar e me alforriar
vou queimar gasolina no norte das minas gerais
antes que deixem virar uma imensa fábrica de soja

nas sensações do convalescente
um mês, um ano, o que for
seguir uns rios inteiros
catar umas pedrinhas
ver mais serras
e as veredas

ficar quanto quiser onde e enquanto valer
andando e parando conforme a vontade
conhecendo gentes e mais gentas

passei a vida viajando rápido
sem saber se indo ou voltando

"... meu filho, toda pressa é maldade ! "
(rosalina para lélio, gr)

já tô vencido e nem ligo, ainda consigo
tô que nem carro véio de pedreiro
cheio de defeitos mas sirvo
e posso terminar a obra
e minha garagem

pois, já bati, já apanhei,
feri e me machuquei
desde os 4 anos

. . .

quando criança pensava no universo visível
sendo os átomos do fio de uma faca
de um gigante ... sem ir além

tenho tanto este direito como
o bam bam bam que disse que
só conhecemos 30% deste espaço
como ele sabe que existe mais 70% ?

e este todo estaria em um imenso vazio ?
além dos 100 seria "um precipício" ?
. . . parece idade média

é muita cara de pau
não dá

e o tempo, que inventamos
é tudo da nossa mente

pensar é definir os estímulos que nos atingem
cultura é o conhecimento bem peneirado
bom senso é admitir o que pode ser
e descartar o que impõem que é

. . .

imagino a vida como um livro que carregamos debaixo do braço.
se temos tempo ficamos relendo as melhores passagens
desatentando às partes desagradáveis que estão lá
ora vendo as figuras, ora revendo com coragem
reavaliando as velhas interpretações

e nunca o folheamos em ordem

então a gente pára em certos trechos
em reinterpretações mais frias
nas mais cruas conclusões
senão não valeu nada

nas páginas ainda em branco
não olhamos ou contamos
escrevendo uma a uma

é o que penso que sei
e sei que bem mais
é o que não sei

mas
saber o que não se precisa
é o que se precisa saber

pensar nos pensamentos

.
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